história
Há terras que se escondem no verde cerrado do Minho, entre caminhos antigos e capelas de pedra, e Ruivães e Novais são duas dessas terras do concelho de Vila Nova de Famalicão. Caminhadas lado a lado, cada uma guarda a sua própria memória, os seus santos e os seus silêncios, e juntas formam um pedaço de Minho onde o tempo parece correr mais devagar.
A história destas terras lê-se nos vestígios que o chão foi guardando. A estação arqueológica de São João de Perrelos é testemunho de que por aqui já se vivia e se trabalhava há muito, numa continuidade de gentes que ligaram o passado remoto às aldeias de hoje. São lugares assim que nos lembram que estas freguesias não nasceram ontem: foram sendo feitas por mãos que lavraram a terra, ergueram muros e deixaram pedras onde ainda hoje se adivinha a vida antiga.
As gentes de Ruivães e Novais são, antes de tudo, gentes do Minho — presas à terra, à vizinhança, à comunidade que se reúne em torno das suas igrejas e das suas tradições. É uma população que conhece o valor do trabalho e da entreajuda, que mantém vivos os costumes herdados de pais e avós e que faz da partilha, sobretudo à mesa e nos dias de festa, um dos pilares da sua maneira de ser.
No capítulo do património, há aqui lugares que merecem passo lento e olhar atento. A Igreja de Ruivães é um ponto de referência, casa de reza e de reunião das gentes, com aquela presença serena que as igrejas paroquiais têm nas aldeias minhotas. Nas imediações, a Igreja de São Miguel de Seide e a Igreja Paroquial de Vermoim marcam a paisagem religiosa desta região, enquanto a Capela da Quinta da Carvalheira, mais recatada, mostra como também as quintas e as casas senhoriais souberam guardar os seus pequenos santuários. E, ao fundo, sempre a estação arqueológica de São João de Perrelos, que convida quem passa a imaginar os que por ali viveram muito antes de nós. São lugares com alma, daqueles que não se visitam à pressa.
As tradições são o coração destas terras. Em Ruivães e Novais, como em todo o Minho, a vida comunitária gira em torno das devoções religiosas e dos encontros que juntam a aldeia inteira. A fé popular mantém-se forte, e com ela toda uma herança de costumes que passam de geração em geração: a ligação à paróquia, o cuidado com as capelas, o gosto de se reunir em celebração. É nessa capacidade de preservar o que recebeu que a comunidade mostra a sua identidade mais verdadeira — um povo que não esquece de onde vem.
À mesa, Ruivães e Novais partilham com todo o concelho de Vila Nova de Famalicão uma gastronomia farta e honesta, feita de sabores que aquecem. O bacalhau à lagareiro, generoso de azeite e batata, o cabrito assado que perfuma as cozinhas nos dias de festa e o cozido à portuguesa, prato de reunião e de abundância, são presenças seguras nas refeições que juntam famílias. Os rojões à moda do Minho são talvez o retrato mais fiel desta terra, com toda a sua gordura saborosa e a sabedoria antiga de aproveitar bem o porco. Dos rios chegam pratos como a molhata de enguias e a sopa de peixes do rio, memórias de uma gastronomia ribeirinha que não se perde. E para rematar, a doçaria: o pão-de-ló de Famalicão, fofo e dourado, o pirilau do Padre Ambrósio e o bolo de noz, doces que fecham a mesa com a doçura que o Minho sabe dar. Comer nestas terras é, no fundo, partilhar a identidade de um povo que faz da fartura um gesto de hospitalidade.
Ruivães e Novais são, assim, duas terras minhotas que convidam a abrandar o passo: a entrar numa igreja, a sentar-se à mesa, a conversar com quem ali vive. Quem as procura descobre a tranquilidade do campo, o peso saboroso da tradição e a certeza de que, por aqui, as raízes continuam bem fincadas no chão.