história
Há terras que carregam séculos no modo como se erguem sobre a paisagem, e São Martinho de Mouros, no concelho de Resende, é uma delas. Debruçada sobre a margem direita do Rio Bestança, não longe do grande Douro, esta é uma das freguesias mais antigas destas bandas, uma terra que guarda a memória de quando foi cabeça de concelho e mandava sobre as redondezas. Durante largos séculos foi sede de um território próprio, com voz e autoridade sobre lugares vizinhos, e dessa grandeza antiga ainda hoje restam vestígios que falam por si.
A história desta terra conta-se nos símbolos que soube preservar. Recebeu foral manuelino no início do século XVI, documento que lhe conferia direitos e deveres e que marcava a sua importância no xadrez do reino. E ergue-se ainda o seu pelourinho, essa coluna de pedra que, mais do que ornamento, era o sinal visível da autonomia municipal, o lugar onde se afirmava a justiça e o poder local. Olhar para ele é olhar para gentes que, geração após geração, foram donas do seu destino e orgulhosas da sua condição.
Mas é talvez na Igreja Românica de São Martinho de Mouros que a alma da terra melhor se concentra. É este o monumento que todos apontam, uma estrutura religiosa notável que resistiu ao tempo e continua a ser o coração espiritual e arquitetónico da freguesia. Quem a visita percebe que não se trata de uma igreja qualquer: a solidez do românico, a sobriedade da pedra, o modo como se impõe sobre o casario, tudo nela convida ao recolhimento e ao respeito por aquilo que as mãos antigas souberam construir para durar.
A paisagem é, por si só, razão suficiente para subir até cá. São Martinho de Mouros vive encaixada no Vale do Douro, naquele cenário onde os socalcos de vinha desenham a encosta em degraus pacientes, obra de muitas mãos ao longo de muitas vidas. Corre nas proximidades o Rio Bestança, que dá frescura e verdura aos vales, e ergue-se ao fundo o relevo acidentado da Serra das Meadas, com os seus miradouros e os seus horizontes largos. É um território onde a história e a natureza se abraçam, onde cada volta do caminho oferece um ponto de vista novo sobre o rio, sobre a serra e sobre as vinhas que descem até à água.
As gentes desta terra mantêm vivos os costumes que herdaram, e o calendário comunitário continua a ser marcado pela devoção e pelo convívio. A fé reúne os habitantes em celebrações solenes, com missa e procissão a abrir caminho ao encontro de toda a comunidade, e é no magusto que muitas destas vivências encontram o seu fecho natural: o cheiro das castanhas assadas, o calor da fogueira e as conversas que se prolongam pela noite dentro. São tradições simples e verdadeiras, feitas de pertença, que ligam os de hoje aos de ontem e que fazem com que quem parte guarde sempre o desejo de voltar nestas alturas.
À mesa, São Martinho de Mouros oferece aquilo que a tradição portuguesa tem de mais honesto e saboroso. A cozinha local é feita de ingredientes da terra e de receitas que atravessaram gerações. Prova-se por aqui o cabrito, assado com a paciência que estes pratos exigem, e os bifes de presunto que trazem o fumeiro à mesa. Há as papas de sarrabulho, prato de inverno e de fartura, o cozido à portuguesa que junta a família em volta da travessa, e o inevitável caldo verde, humilde e reconfortante. São sabores autênticos, que refletem a cultura e os produtos naturais da região, e que se descobrem melhor nos restaurantes e nas bancas onde chegam os frescos da terra. Sentar-se a comer em São Martinho de Mouros é, no fundo, uma forma de conhecer a terra por dentro, pelo que ela cria e partilha.
No conjunto, esta é uma freguesia que soube manter a dignidade antiga sem perder a simplicidade. Entre o românico da sua igreja, o pelourinho que recorda tempos de autonomia, as vinhas em socalcos e os sabores de sempre, São Martinho de Mouros é um daqueles lugares do Douro que merecem demora: para olhar, para provar e para sentir o peso bonito do tempo.