história
Mancelos guarda, no seu nome, um eco antigo de Roma. Dizem os estudiosos que 'Mancelos' nasceu de 'Minutiellus', diminutivo do nome romano 'Minutius' — e já nessa raiz se adivinha uma terra habitada e amada desde tempos muito recuados, quando por estes vales do concelho de Amarante corriam gentes que iam deixando nos campos o seu rasto de pedra e de fé.
A história de Mancelos é das que se contam devagar, à sombra de séculos. Pertenceu ao velho e desaparecido concelho de Santa Cruz de Riba Tâmega, nome que já por si cheira a antiguidade e a raízes profundas na região. D. Sancho I, aquele rei povoador que tanto cuidou do Norte, concedeu-lhe foral — gesto que elevou a terra, lhe deu voz própria e reconheceu as suas gentes como merecedoras de direitos e de futuro. Foram muitas as gerações que aqui lavraram a terra, criaram o gado, ergueram capelas e passaram de pais para filhos o saber de viver num lugar que teima em não perder a sua identidade.
Mas é no património que Mancelos revela a sua alma mais funda. O Mosteiro de São Martinho de Mancelos, de origem muito recuada, é o grande guardião da memória local — casa de oração e de trabalho que durante séculos marcou o ritmo da comunidade. A ele se liga a Igreja Românica de Mancelos, pedra sóbria e verdadeira, dessas que resistem ao tempo com a dignidade das construções feitas para durar. Quem entra sente logo o peso dos séculos e a serenidade de um lugar onde o silêncio tem história. Espalhadas pela freguesia erguem-se ainda capelas que pontuam a paisagem e acompanham o devoto: a Capela da Senhora da Conceição, a devoção à Senhora de Fátima, e sobretudo a notável Capela de São Frutuoso de Montélios, raro e fascinante testemunho dos primeiros séculos cristãos em Portugal — um daqueles monumentos que fazem valer a viagem, porque não há muitos como ele em toda a terra portuguesa. São lugares com alma, onde a pedra fala e onde cada visitante percebe que Mancelos é mais antiga do que parece.
Nas tradições, Mancelos mantém viva a chama do folclore. A música e a dança tradicionais são aqui mais do que espetáculo: são herança, são memória do trabalho e da festa, dos tempos em que as eiras se enchiam de gente ao fim das colheitas e o som da concertina chamava toda a aldeia. O Rancho Folclórico S. Martinho de Mancelos leva com orgulho e entusiasmo esse legado, mostrando trajes, cantares e bailados que contam a vida das gentes do campo. É nessas rodas de dança, nos passos ensaiados e nas vozes antigas, que a comunidade se reconhece e se recorda de quem foi — e de quem continua a ser. O artesanato acompanha esta vocação, trazendo às mostras locais o saber das mãos que trabalham a terra e os seus materiais, num diálogo constante entre o antigo e o presente.
À mesa, Mancelos faz honra à grande tradição gastronómica de Amarante. Aqui, o cabrito assado é rei das ocasiões especiais, tenro e dourado, perfumado pelos aromas da serra. O cozido à portuguesa reúne em redor da travessa toda a fartura da terra, e o arroz de cabidela, apurado e saboroso, lembra os sabores fundos das cozinhas de outros tempos. O fumeiro, feito com o saber de quem conhece o frio e o fumo das lareiras, completa esta mesa generosa. São pratos que nascem dos produtos locais e regionais, cozinhados com paciência e com aquele carinho que só as cozinhas de aldeia sabem dar. Pela região, não faltam ainda outras glórias — a vitela assada, as tripas, o arroz de frango de cabidela — que mostram como esta é terra de bom garfo e de boa companhia. Comer em Mancelos é provar a própria história da terra, servida quente e sem pressas.
No fim, o que fica de Mancelos é a sensação de um lugar inteiro: antigo e vivo, devoto e festeiro, trabalhador e acolhedor. Uma freguesia que não se gaba, mas que tem muito para mostrar a quem a sabe procurar.